26 de junho de 2008

PINGUE-PONGUE

Esse talvez tenha sido um dos episódios mais bizarros da minha vida noturna. As personagens e as histórias predecessoras serão contadas em crônicas posteriores, mas isso em nada altera o que aqui será narrado.

Chego à boate, véspera de feriado em dia de semana e toda a pinta de que ficará vazia. Ela aparece por lá para encontrar um amigo em comum, mas acho que queria me ver. Decidíramos nos afastar para que ela não se machucasse com a minha indiferença. Nosso amigo não apareceu e ela ficou sentada no balcão do bar.

Apareceu a outra com a amiga de sempre. Me cumprimentou por alto e deu as costas. Alguns segundos depois, se destacou da amiga e voltou-se para mim.

– Preciso conversar com você.
– Tudo bem, o que foi?
– Você me trata muito mal.
– Eu? Como assim?
– É, você me trata muito mal.
– Não é porque sou sarcástico que te trato mal. Essa é a nossa relação. Eu sou grosso e você acha graça disso.
– Bem que você disse que gostava muito de Seinfeld! Você trata minhas amigas muito melhor do que a mim!

Nesse ponto, tive de controlar minha maldade. "É claro, eu ainda não fiquei com elas!", pensei. A conversa ia por esse rumo quando a primeira apareceu: "Preciso falar com você". Era só o que me faltava! "Me espera lá em cima", respondi.

– O que foi?, perguntou a outra depois que a primeira saiu.
– Acho que vou levar outro esporro desses.
– Então vai lá.

Subi e ela estava me esperando.

– Me ajuda a ficar com raiva de você.
– Não sei fazer isso.
– É mais fácil pra eu poder te esquecer.
– Acho que você vai ter que fazer isso sozinha.
– Por que as coisas são assim?
– Eu te avisei desde o começo.

E assim evoluiu (ou não) a conversa. Até que, para minha surpresa, a outra apareceu desavisadamente. Não me agüentei e tive uma crise de riso. Dei as costas às duas e desci. A outra desceu atrás.

– Desculpe, não sabia que vocês estavam lá.
– Tudo bem.
– Vai lá, fica com ela!
– Não quero ficar com ela. Não quero ficar com ninguém hoje.
– O que vocês conversaram?
– Basicamente a situação é a mesma daqui.
– Eu tenho uma imagem muito negativa de você.
– Não devia. Nunca menti pra você, nunca te enganei.
– Você me tratou muito mal da última vez que nos vimos.
– Eu não queria ficar com você e você chegou se atirando em mim.

Meu celular não parava de tocar. Era a primeira garota, resolvi atender.

– Estou indo embora.
– Me espera na porta do lado de dentro que já vou.

Fui.


– Eu te falei pra não ficar burro.
– Não fiquei. Mas sei o que quero e o que não quero.
– Você vai perder muita coisa assim.
– Ninguém perde o que não quer.

Na hora não soou tão grosseiro, nem para mim, nem para ela. Ela estava muito fragilizada, dei-lhe um abraço apertado, como uma despedida, e um beijo na testa. Eis que passa a outra, olha para mim com cara de reprovação e vai embora. Nos destacamos, ela se despediu de mim com os olhos cheios d'água e um sorriso carinhoso.

Não me senti mal. Na verdade, a situação era tão surreal que senti-me, de fato, num episódio de Seinfeld! Tomei mais uma cerveja e contei a história para uma amiga minha que estava por lá. Noite perdida, fui para casa.

Chegando, tiro o celular do bolso. Nova mensagem de texto: "Não precisava mentir, eu vi você ficando com ela quando fui embora". Respirei fundo e soltei baixinho: "Foda-se, não vale o esforço!"

23 de junho de 2008

PRODÍGIO

Aprendi a ler com três anos. Não fui autodidata, simplesmente tenho um irmão dois anos mais velho que me ensinava tudo o que aprendia na escola. Na mesma época aprendi a fazer contas e sequer me lembro de algum dia não ter sabido uma dessas coisas.

Aos quatro anos, sentava-me ao piano e tirava as músicas que meu irmão aprendia em sua aula. Evidentemente ele me batia por tocar "suas" músicas sem o menor esforço. Descobriu-se que eu tinha ouvido absoluto e entrei na aula para aprender o dedilhado; mas lembro-me de tocar xilofone com três anos de idade, daqueles que só tem uma oitava e só as notas que pertencem à escala de dó maior.

Nunca tive de estudar em casa. Na pré-alfabetização, a professora achou que eu tinha problemas, pois não me interessava em ser alfabetizado. Ela disse a meus pais que eu tinha problemas de coordenação motora nas mãos e que teria dificuldade em aprender a ler. A essa altura, eu lia com fluência e tocava piano com facilidade. Meus pais, obviamente, duvidaram de sua competência.

O tempo passou e acostumei-me a ser o melhor aluno da sala sem pegar num livro em casa. Quando virei segundo ou terceiro aluno, aqueles melhores do que eu estudavam todo o dia enquanto eu ia jogar bola ou videogame.

Fiz vestibular duas vezes, passei nas duas, passei em primeiro no Mestrado e entrei no Doutorado de primeira. Nunca tive problemas para arrumar emprego, aprendo qualquer coisa que me interessar e em todos os trabalhos, sou tido como um curinga, pau-para-toda-obra, aquele que resolve problemas.

E o que há de errado nisso? Bem, para começar, a eterna frustração de sempre achar que podia ser melhor. Tenho a sensação de que meu potencial nunca é explorado e que a culpa disso é minha. Em segundo lugar, por mais que ninguém me pressione, tenho sempre a sensação de que me superestimam e, novamente, de que não estou a altura do que se espera de mim.

Resultado? Virei um chutador de balde com senso de responsabilidade. Desisti de ser o que acho que as pessoas esperam de mim e resolvi me divertir. Onde isso vai me levar? Não sei. Esse ano faço 30 e, quer saber? Não poderia estar melhor!

17 de junho de 2008

COZINHA DE RESTAURANTE

Eu sou um cara ciumento, não em excesso e não por falta de confiança em mim ou na namorada corrente. O ciúme é algo irracional, que por mais que se tente combater, nos invade pelo estômago, passa pela corrente sangüínea e chega ao cérebro causando um apagão na área que controla o bom senso.

É por isso que nunca pergunto a uma mulher sobre seu passado. Como no dito popular, "passado de mulher é igual a cozinha de restaurante, se conhecer, não come". Bem, não é exatamente assim, mas é algo que preferimos não vasculhar.

Até porque, com todas as histórias que vocês lêem aqui, eu não tenho muito moral para criticar o que alguém faz ou deixa de fazer com sua vida sexual e amorosa. Cada solteiro é livre para fazer o que acha melhor.

Evidentemente, não saio por aí revelando detalhes sórdidos de minha vida. Esse é um dos motivos de meu anonimato neste blog. Mas, o que fazer quando elas perguntam?

Normalmente já sabem a resposta e não adianta negar. Um dos meus maiores erros foi achar que poderia contar as coisas. Sempre dava em briga, e, às vezes, a coisa extrapolava e ficava violenta. Acho que a melhor coisa a fazer é desconversar. Freqüentemente eu perguntava: "Por que você quer saber disso? Só vai te irritar", mas isso era como uma resposta afirmativa para qualquer coisa que pudesse provocar ciúme.

Não consegui, até hoje, desenvolver uma tática que funcionasse. Talvez alguém dê uma luz nos comentários. Mas, sinceramente, o melhor é namorar uma mulher que não se interessa pelo seu passado!

12 de junho de 2008

O QUE SAI E O QUE ENTRA

Se tem uma característica que eu admiro numa mulher é a inteligência. Eu já tive uma namorada de raciocínio bem limitado e outra bastante consistente; a primeira durou cinco meses e a segunda mais de um ano, pois a troca nesse aspecto era bem maior

Na faculdade, quando estava na graduação, depois mestrado e doutorado, sempre parei para ouvir os melhores argumentos delas em aula. E, quando a mulher é bonita, eu viajo em suas explicações e fico olhando para sua boca se mexendo com tanta fluidez. Chega uma hora em que o som se esvai e a boca...

Como será o boquete dela?

9 de junho de 2008

HÁ MALES QUE VÊM PARA PIOR

Eu acredito no pessimismo como filosofia de vida. Não somente devido à Lei de Murphy, mais do que demonstrada em nosso dia-a-dia, pois esse pessimismo é latente e universal. O pessimismo me faz ter uma visão mais realista das coisas.

Isso pode ser visto como prudência. Sempre que vejo alguém organizando algo grande, penso em tudo o que pode dar errado. Caso a pessoa não se previna (e, em alguns casos, não há como), uma das possibilidades fatalmente acontece.

Entretanto, não foi assim que essa filosofia surgiu. Quando eu era criança, sempre criava grandes expectativas em relação às situações: um presente legal de aniversário, uma garota especial que deveria estar numa festa... normalmente me ferrava. Ganhava uma besteira qualquer e a garota, se ia, estava acompanhada.

Nunca consegui lidar decentemente com a frustração, então decidi não criar mais expectativas. Não consigo tirar lições ou ver o lado bom das coisas à la Poliana, simplesmente aceito o que vier de ruim, pois já é esperado. Ao contrário: depois de uma notícia ruim, costumo esperar corolários piores!

Mas nem tudo é ruim nessa filosofia de vida. A partir do momento que não criamos expectativas, não podemos quebrar a cara. Se eu acho que vou levar um fora e consigo ficar com a garota, a satisfação é dobrada. Se eu ganho um presente que não estava esperando, a surpresa é real. Pessimismo não é mais do que um escudo contra as frustrações que insistem em nos perseguir.