PINGUE-PONGUE
Esse talvez tenha sido um dos episódios mais bizarros da minha vida noturna. As personagens e as histórias predecessoras serão contadas em crônicas posteriores, mas isso em nada altera o que aqui será narrado.
Chego à boate, véspera de feriado em dia de semana e toda a pinta de que ficará vazia. Ela aparece por lá para encontrar um amigo em comum, mas acho que queria me ver. Decidíramos nos afastar para que ela não se machucasse com a minha indiferença. Nosso amigo não apareceu e ela ficou sentada no balcão do bar.
Apareceu a outra com a amiga de sempre. Me cumprimentou por alto e deu as costas. Alguns segundos depois, se destacou da amiga e voltou-se para mim.
– Preciso conversar com você.
– Tudo bem, o que foi?
– Você me trata muito mal.
– Eu? Como assim?
– É, você me trata muito mal.
– Não é porque sou sarcástico que te trato mal. Essa é a nossa relação. Eu sou grosso e você acha graça disso.
– Bem que você disse que gostava muito de Seinfeld! Você trata minhas amigas muito melhor do que a mim!
Nesse ponto, tive de controlar minha maldade. "É claro, eu ainda não fiquei com elas!", pensei. A conversa ia por esse rumo quando a primeira apareceu: "Preciso falar com você". Era só o que me faltava! "Me espera lá em cima", respondi.
– O que foi?, perguntou a outra depois que a primeira saiu.
– Acho que vou levar outro esporro desses.
– Então vai lá.
Subi e ela estava me esperando.
– Me ajuda a ficar com raiva de você.
– Não sei fazer isso.
– É mais fácil pra eu poder te esquecer.
– Acho que você vai ter que fazer isso sozinha.
– Por que as coisas são assim?
– Eu te avisei desde o começo.
E assim evoluiu (ou não) a conversa. Até que, para minha surpresa, a outra apareceu desavisadamente. Não me agüentei e tive uma crise de riso. Dei as costas às duas e desci. A outra desceu atrás.
– Desculpe, não sabia que vocês estavam lá.
– Tudo bem.
– Vai lá, fica com ela!
– Não quero ficar com ela. Não quero ficar com ninguém hoje.
– O que vocês conversaram?
– Basicamente a situação é a mesma daqui.
– Eu tenho uma imagem muito negativa de você.
– Não devia. Nunca menti pra você, nunca te enganei.
– Você me tratou muito mal da última vez que nos vimos.
– Eu não queria ficar com você e você chegou se atirando em mim.
Meu celular não parava de tocar. Era a primeira garota, resolvi atender.
– Estou indo embora.
– Me espera na porta do lado de dentro que já vou.
Fui.
– Eu te falei pra não ficar burro.
– Não fiquei. Mas sei o que quero e o que não quero.
– Você vai perder muita coisa assim.
– Ninguém perde o que não quer.
Na hora não soou tão grosseiro, nem para mim, nem para ela. Ela estava muito fragilizada, dei-lhe um abraço apertado, como uma despedida, e um beijo na testa. Eis que passa a outra, olha para mim com cara de reprovação e vai embora. Nos destacamos, ela se despediu de mim com os olhos cheios d'água e um sorriso carinhoso.
Não me senti mal. Na verdade, a situação era tão surreal que senti-me, de fato, num episódio de Seinfeld! Tomei mais uma cerveja e contei a história para uma amiga minha que estava por lá. Noite perdida, fui para casa.
Chegando, tiro o celular do bolso. Nova mensagem de texto: "Não precisava mentir, eu vi você ficando com ela quando fui embora". Respirei fundo e soltei baixinho: "Foda-se, não vale o esforço!"








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