19 de março de 2009

SILÊNCIOS DESCONFORTÁVEIS

O restaurante era grande, mas sua decoração lembrava um quarto de motel. A vantagem é que havia um piano que eu poderia usar juntamente com o teclado para os shows, o que daria um excelente efeito no público. Que público?

Não havia divulgação, sequer um tijolinho no jornal. Aquilo ficava às moscas e, de vez em quando, apareciam uns gatos pingados ou uns amigos que os músicos chamavam. Foi assim que ela apareceu: era amiga da mãe de um amigo do baixista. Bem branquinha, cabelo curtinho, estava sempre com um cheiro doce de canela.

Reparei logo no primeiro show. Mais umas duas semanas e cheguei junto. Não me lembro se foi antes ou depois do show, mas gostei muito de seu beijo. Na semana seguinte, resolvemos esticar a noite na casa da amiga do baixista, que era louca pelo baterista.

Fomos para o sofá e quando tive coragem para pôr minha mão sob sua saia, reparei que estava sem calcinha. Fiquei louco! Queria transar ali de qualquer jeito. Ela gemia de tesão enquanto eu a masturbava e pensava em como levar aquilo adiante.

Não deu. A noite já havia ido e de manhã deixei-a em sua casa. Era só uma questão de oportunidade. Em outro show, mais perto da minha casa, passamos todo o tempo livre nos beijando. Ali, não havia jogo: eu precisava levar o teclado para casa e ela não podia perder a carona.

Liguei no dia seguinte: nos encontraríamos na Barra, num quiosque. Era quase um meio-termo entre nossas casas. Sentamos, pedi uma cerveja e ela, uma coca. Foi então que percebi o quanto aquilo tudo ia dar errado.

Cada vez que eu tentava engrenar uma conversa, ela respondia com um monossílabo e num tom que demandava esforço para ser entendido. Quando ela respondia mais longamente, não finalizava com uma pergunta para dar prosseguimento à conversa. Até que...

- (...)
- (...)
- Vamos embora daqui?
- Vamos. No seu carro ou no meu?

Levei-a para um motel ali perto. Mas a essa altura, o tesão já tinha se esvaído dentre aqueles silêncios desconfortáveis. Lá, tirei sua roupa e não me ative muito nas preliminares. Não foi lá essas coisas, mas ela parecia satisfeita, talvez não fosse muito exigente. Fomos para a banheira.

Novamente o silêncio. Mas depois, até que ele não é tão ruim. Nos encostamos, depois nos tocamos e só então comecei a ficar com tesão. A frustração intelectual estava passando e a coisa começou a esquentar de novo. Fomos novamente para a cama e consegui mostrá-la do que eu era capaz. Mas, pelo visto, foi só para satisfazer o meu ego, já que aquilo não seria capaz de evoluir.

Nos dias seguintes, evitei falar com ela. Atendi o telefone poucas vezes, não tinha a menor vontade de vê-la. Ela apareceu no meu show e eu decidi tornar a situação o menos desagradável possível. Sentamo-nos e conversamos. Disse-lhe que fiquei sem graça de ligar porque não queria levar adiante, ela se conformou.

Pouco tempo depois transou com o vocalista. E depois com o amigo dele. E percebi que eu não tinha muito mérito de ter transado com ela. Sua carência era tal que a tornava descartável.

11 de março de 2009

CODA

Términos de namoro são algo complexo. A gente passa semanas, às vezes meses, planejando o que vai dizer, como vai dizer, que justificativas vai dar, se vai esperar ela fazer alguma besteira para usar como desculpa... enfim, no final, não há nada que torne a tarefa menos desagradável.

Mas uma vez terminada a relação, existe uma outra coisa que, embora não seja tão ruim, também desperta um desconforto considerável. É aquele reencontro após o final, aquele em que ela pede para voltar, ou te provoca ou ainda conversa com você como se fossem meros conhecidos. Uma coda tão angustiante quanto aquelas dos finais das músicas dos Guns N' Roses com a guitarra chorada do Slash e o falsete gritado do Axl.

Já passei por todas as situações acima. Apenas uma vez o reencontro foi tranquilo, até porque nosso relacionamento havia sido muito curto, apesar de ambos termos considerado um namoro enquanto estávamos juntos.

Tive uma, coitada, que nem se deu conta de que havíamos terminado. No dia após o término, ela apareceu na porta no meu prédio com flores e uma carta. Fiquei irritado, disse-lhe que não aparecesse assim sem avisar, mas de tanto insistir, disse que ia pensar. Não dei mais notícias até que ela me ligou dizendo que não aguentava mais esperar. Acabei terminando (de novo) por telefone, algo que ela dizia achar abominável (e eu também).

Com outra já foi mais complicado. A história já está contada e, apesar de reencontrá-la pedindo para voltar ter-me feito sentir por cima, levei um tempo até me recuperar de tudo. Até porque ela continuou fazendo contato comigo através de uma "guru" que ela tinha (era kardecista, eu achava tudo uma bobagem) que me ligava para dizer como ela estava mal, que não comia, que sua mãe pensou em interná-la... o drama de sempre. Eu respondi secamente: ela acha que vai morrer quando pega uma gripe, não se preocupe que ela sempre fica bem.

Teve mais uma que... bem, terminei o namoro de forma tão grosseira que a culpa me fez pedir para voltar no nosso primeiro reencontro. Mas isso é história para uma outra crônica.