@paraotumulo

29 de dezembro de 2009

METRÔ

Metrô carioca. E, ultimamente, o serviço tem deixado muito a desejar. Resta-nos, apenas, procurar alguma companhia agradável para poder admirar de vez em quando no caminho entre a casa e o trabalho.

Entro no vagão. Linda, pouco menos de 1,60m, cabelos pretos, longos, lisos, olhos castanhos escuros e um belo par de seios. Chego perto, ela percebe. Os fones de ouvidos dos dois impedem qualquer contato verbal, mas isso não parece necessário.

Desço a mão no balaústre até a altura de seu corpo. Cada movimento do vagão é uma desculpa para que ela encoste em mim. Quando olho para o outro lado, percebo seu rosto virar em minha direção e seus olhos me fitam rapidamente.

O vagão enche e a tensão aumenta. Como falar com ela? Como fazer contato? A essa altura, sua mão já encosta na minha suavemente. Meu coração dispara. Penso em tirar um papel do bolso e anotar meu telefone, mas me falta iniciativa.

A estação se aproxima. Sinto que vou perder mais essa. A porta abre e nós dois saímos. Ela não olha mais para trás e eu, derrotado, sigo o caminho de meu trabalho.

17 de dezembro de 2009

TODAS AO MESMO TEMPO

Quando eu tinha uns vinte anos e tocava numa banda, sempre havia umas groupies com quem eu poderia sair. Havia uma dupla que estava em todos os shows, uma garota de quinze e uma de dezessete, sendo que a mais velha era mais bonita e a mais nova era a mais sexy. Eu, evidentemente, queria as duas.

Foi quando meu irmão me chamou a atenção: "Você não pode querer ficar com todas ao mesmo tempo". Realmente, se eu fosse investir nisso, eu acabaria sozinho. No final, dei uns beijos na garota novinha e, como sempre, sumi sem dar satisfação e ela demorou a voltar a falar comigo. Só mesmo quando começou a ficar com o baterista da banda.


E o que mudou de lá para cá além dos mais de dez anos que se passaram? Continuo assim: ou quero só uma e é para valer, ou quero todas, pelo menos até que essa uma apareça. A diferença é que, agora, eu não preciso mais escolher. É tudo questão de dia, hora e local.

15 de dezembro de 2009

ALTRUÍSMO

É chavão dizer que não existe nada mais egoísta do que o ser humano. Na minha opinião, o conceito nem cabe: não existem tais coisas como altruísmo e egoísmo simplesmente porque o altruísmo é uma fantasia.

Explico: nenhum conceito existe sem o seu oposto. Quando um animal cuida de sua prole, seu instinto avisa da necessidade de proteger seus descendentes. Se é de uma espécie que não cuida, é porque já existe outro mecanismo de sobrevivência. Nós somos humanos, não funcionamos à base do instinto, mas temos nossos mecanismos de compensação.

Porque quando buscamos o bem alheio, não buscamos nada além da satisfação pessoal com o feito.

3 de dezembro de 2009

ÍNDIO QUER VODKA

- Vamos lá, você entra 0800 e ainda bebe vodka de graça!
As palavras mágicas. E quem servia a vodka (na boca) era a irmã de um amigo meu. Uma graça, eu já quis ficar com ela há um tempo. Eu havia terminado um namoro longo e sério, praticamente um casamento, tinha poucos meses e estava numa fase "Yes man", querendo fazer tudo o que deixara de lado durante o tempo em que estava namorando.

Era uma quinta-feira, ou seja, nada de encher a cara e chegar de ressaca no trabalho. Mas algumas doses não me fariam mal. O problema é que os caras com quem eu tinha combinado iam chegar tarde e acabei indo com outro amigo, para esperá-los lá mesmo. Eles nunca chegaram.

O lugar era exatamente o que eu esperava: cheio de cachorras, dessas que vão à caça nos happy hours e uma música muito, mas muito ruim. Me lembrou a década de 90, quando a dance music estava em alta e eu, sempre roqueiro, me sentia em outro mundo.

As idades das mulheres variava de 18 a 50. Algumas eu tenho certeza que ganhavam renda extra trabalhando à noite. Os caras, normalmente playboys que deixaram o pescoço em casa e mauricinhos metidos a yuppies, vinham em bandos e, às vezes com grupos de mulheres acompanhando.

Consegui tomar três doses de vodka servidas por ela e percebi que talvez algum progresso tivesse acontecido ali. Da próxima vez que encontrá-la, vai ser mais fácil entrar num assunto e chamá-la para sair. Mas para outro lugar.

A uma certa altura, eu e meu amigo paramos perto de um desses grupos e uma das mulheres estava dançando até o chão com dois caras com as mãos nas suas coxas. Depois ela saia e puxava outro cara enquanto sua amiga ia dançar com os outros dois. No final, todos os caras estavam ficando com as mulheres do grupo e não sei que tipo de suíngue sucedeu aquilo.

O tempo passava e nada dos caras chegarem. E nada dela aparecer com a vodka novamente. A música ia de mal a pior quando o DJ anunciou que era hora de começar o funk. Chamei o meu amigo e falei que daquele nível eu não conseguia baixar. E o auge da noite foi o ar condicionado no vagão do metrô.

No final, ficou aquela sensação que eu não tinha há muito tempo de estar num lugar ao qual eu não pertenço, algo que fez parte de toda minha adolescência. Só que agora eu já sei que o lugar está errado. Eu não.