@paraotumulo

18 de dezembro de 2010

CASAMENTO

Então achei que tinha encontrado a mulher da minha vida. O que continua me impressionando é que todos a minha volta viram seus defeitos, que só fui enxergar quando tudo acabou. Pelo menos tiveram a decência de esperar o fim para conversarem a respeito.
Parecia perfeito, o namoro começou como num filme água-com-açúcar. Morávamos no mesmo prédio, ela comentou algo de que gostei no orkut, chamei-a para conversar no msn. Um clássico contemporâneo. Evoluímos bem, ela gostava de cuidar de mim e eu dela. Tínhamos tudo para dar certo.

Depois de um ano de namoro perfeito, fomos morar juntos. Alugamos um apartamento grande de dois quartos, dividíamos as despesas, mobiliamos tudo e, como era de se esperar, os problemas surgiram.

Ela me cobrava casamento. Mas não podia ser apenas um casamento. Tinha que ter anel de noivado e pedido de filme. Eu não sou exatamente um cara criativo e, para piorar, acho essa influência do cinema americano ridícula. Mas estava disposto. Só que era cedo.

Aos poucos, fui percebendo realmente os defeitos que ela já havia me mostrado, mas não consegui transpor para a relação. Em pouco tempo, eu era culpado de tudo que dava errado. Todos os dias, ouvia a clássica "Não estou reclamando, estou só falando". Eu sou um cara pragmático: me traga um problema que eu começo a pensar numa solução. Mas ela não queria soluções, queria ter razão. Eu estava vivendo o Inferno de Sartre.

Depois entendi que, quando morava com a mãe, ela tinha seu saco de pancadas particular. Quando fomos morar juntos, coube a mim esta honra. Depois de quase um ano de desgaste, nos separamos. Aquele estresse permanente havia minado o amor que eu sentia por ela (mas não o que ela sentia por mim). Ela dizia: "Eu faço dar certo", e eu retrucava: "Não quero que dê certo, preciso ficar sozinho".

Precisava de espaço. E consegui. Mas agora, não consigo ver futuro para mim em nenhum tipo de relação.

Tudo isso para dar um conselho. Vocês são felizes? Ótimo. Querem casar? Dividam a sua vida por um ano, façam um test drive. Quando um casal vai morar junto, o relacionamento muda. Mudam as pessoas também.

13 de dezembro de 2010

CRITÉRIO

Dessa vez, não foi por falta de iniciativa. Eu estava curtindo um feriadão, ainda nem tinha feito treze anos, mas mulheres ainda eram ETs para mim, algo tão distante que, por mais desejo que eu tivesse, não tinha a menor ideia do que fazer perto de uma. Eu ainda era café-com-leite.

Mas eu simplesmente não estava interessado. Conheci-a nadando na piscina do hotel; ela puxou papo. Devia ser um pouco mais velha (na época, eu não sabia fazer as perguntas certas), mas olhou muito para mim. Eu, magrelo, não achava que meu corpo poderia atraí-la. Talvez tenha me achado bonito.


Não me atraiu. Mesmo assim, o recreador armou de nos encontrarmos mais tarde para jogar cartas ou algo assim. Nos encontramos, mas não jogamos nada, passamos a tardinha conversando. Bem agradável, aliás. Ela morava numa cidade na divisa com São Paulo, estava lá com a família... não me lembro bem.

Quase duas décadas mais tarde, parei para pensar no episódio. Se fosse hoje, eu teria ficado com ela, tentado levá-la para a cama, pegado seu telefone para nunca ligar. Mas na época, por mais que eu não fosse tentar nada com ela mesmo que me atraísse, eu tinha muito mais critério. Critério, aquela coisa que começa rígida, mas vai ganhando flexibilidade com o tempo, tornando-se, vez por outra, um mínimo de auto-preservação que se confunde com nosso próprio instinto de sobrevivência.

7 de dezembro de 2010

FREIO

Esse é o lance de ser homem: passar a juventude em busca de sexo. Talvez fosse mais fácil se a vida não fosse assim, se as coisas fossem bonitinhas, boy meets girl etc. Mas boy meets girl, boy fucks girl, boy meets another girl...
Essa é a roda-viva do sexo. Quando se descobre a fórmula para conseguir sexo todos os fins de semana (e alguns bônus nos dias úteis), a gente começa a sentir tudo cada vez menos real. É quando começamos a beber até cair seguidamente, e aprendemos o macete de amanhecer sozinho para não nos assustarmos com a noite passada. A tendência da auto-destruição falar mais alto faz com que procuremos qualquer coisa para se sentir algo novo.

Nessa hora, precisamos de um freio. O mais fácil é começar um relacionamento, ainda que não se goste muito dela, ainda que nada disso seja especial. É temporário, algo para pôr a cabeça no lugar e começar tudo de novo, dessa vez mais devagar, dessa vez com menos álcool e mais critério.

No final, ela vai sofrer. Mas ela não precisa saber o cafajeste que você foi. Afinal, tudo ia acabar um dia mesmo. É só fingir que algum dia algo começou.