Começou em 1996. Ela havia passado mal em julho, mas a notícia só veio em outubro: era leucemia. Em princípio, era de um tipo mais leve, tudo ia ficar bem.
Recebi a notícia com receio. A palavra mete medo na gente. Fui visitá-la onde estava internada, na Tijuca. Ela parecia bem, tinha começado a quimioterapia. Seria um ano de tratamento, sendo que os primeiros meses internada no hospital.
Tornei a visita habitual, às vezes até filava um pouco do seu almoço. Ela parecia apreciar bastante, ficava sorridente e conversava bastante comigo. Um dia, descobriu que ficara diabética: a quimio assassinara seu pâncreas. Na verdade, ele resistia com umas poucas células, o que lhe deixava uma esperança de recuperação em alguns anos ou décadas. Chorou um pouco.
Cortou o cabelo loiro bem curto para o choque ser menor quando começasse a cair. Ela dizia: "Só parece terrível, mas não é terrível". Eu acreditava, e ela também.
Nossa história havia sido conturbada. Quando estávamos na sétima série, ela me jogou com a cadeira de costas no chão. Coisa de moleque, mas tive muita raiva. A raiva passou com o tempo e nos tornamos amigos.
Por tabela, fiquei amigo de seu namorado, que a sacaneava de todos os modos possíveis. Ela vinha chorando conversar comigo, dizendo que estava cansada daquilo tudo. Foi sair da escola e eles terminaram.
Nos encontrávamos sempre no meio de outros amigos. Viajamos juntos para São Paulo com um grupo grande. Meus amigos queriam nos ver juntos. Acho que até tive oportunidades, mas minha timidez não colaborou.
E agora, lá estava ela, numa cama de hospital, dizendo que tudo ficaria bem. Quando ela vacilava, era eu a dizer. "Não sei...", retrucava.
Poucos meses depois, saiu para fazer tratamento em casa. Quase um ano se passou. Seu cabelo caiu, mas continuava linda. Fizemos cursinho junto, em filiais diferentes, mas nos encontrávamos nas aulas de fim-de-semana. Soube que ela passou por momentos muito difíceis, enjôos, mas tudo era passado. Em breve seu cabelo voltaria a crescer.
Nos afastamos. Soube, tempos depois, que o câncer voltara e, agora, precisaria de um transplante. Quis visitá-la, mas não consegui. Passaram-se umas semanas e recebi a notícia: pneumonia, causada pela baixa imunidade infligida pela quimioterapia. Não fui ao enterro, mas fui a uma cerimônia religiosa dias após ver seus pais.
Saí de lá com seu ex-namorado. Ele estava inconsolável, e, acima de tudo, culpado por tudo o que havia feito com ela. Conversamos, fomos a sua casa e acendemos um baseado. "Seu sentimento por ela traspassava a amizade, não é?", me perguntou. Ele não entenderia meu sentimento por ela. Para mim, bastava saber que ela estava bem e feliz, do meu lado ou não. "Sim", respondi.
23 comentários:
Excepcional. Essa coisa dos giros da vida é...bem, é foda...Não tem outra palavra...
Caraca... lindo texto. Parabens!
Nossa, q triste. Não queria adimitir, mas meu olho até encheu d'água...
Muito bom!
mais texto q me surpreendeu...
acho que sim, que nao será dificil entender-nos ;-) polo de agora, atopeite.
un saudo desde a galiza
Adorei a música... Mesmo! Obrigada!
E o seu texto também. Me fez lembrar de algumas coisas evito pensar. Mas gostei, mesmo assim...
Um beijo
Flaviana
Rapaz, hoje a história foi triste. A única coisa boa disso tudo é que fica aquela saudade boa da pessoa.
Ah...valeu pelos parabéns lá no blog!
Triste, porém belo. Existe vida até em histórias assim.
Abraços e valeu por aparecer no meu brogui.
DB.
Po, Oculto, esse foi forte, o ex-namorado nunca ia entender mesmo...Eles nunca entendem, ninguem nunca entende e eh isso que estimula a gente muitas vezes.
Eu tô numa fase "ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar"... chorei!!
Fiquei pensando em chances que a gente às vezes perde de ter namorinhos gostosos...
Essa não é aquela mesma que vc perdeu por W.O. não, é?
Beijos!!
Não, j@de, aquela faz mais tempo. Cheguei a sonhar com essa algumas vezes e isso ajudava a matar a saudade um pouco. Hoje, são lembranças.
Legal o texto.
Vou colocar seu link lah sim e obrigado por colocar o meu, mas nessa história de oculto eu to também, então não tem nenhum amigo meu vendo o blog tbm! e eu nem fiz propaganda no google! Por isso que quase não tenho visitas, mas vejo q pelo quantidade de coments seu blog está fazendo sucesso, parabéns!
ai, que dor...
que dor!
Eu sonho com a minha ainda, varias vezes por mes, sem nunca parar.Ela estah tao perto, mas ao mesmo tempo inalcansavel, nao sei se o que me deprime eh isso ou a simples falta de peito aberto pra apertar o botao do foda-se e ir atras.A genta vai ficando velho, cagao e cheio de dedos... Fui obrigado a ler de novo seu post.O que importa eh ela feliz, yeap, do jeito que for. Mais uma vez parece que saiu da minha cabeca. Voce tem punho bom, Oculto,muito bom.
patricia albuquerque pow sem palavras ...q estoria,eu tbm perdi uma amiga a pouco tempo...e o q é mais triste nisso tudo é saudade q iremas senti. 23/11/2006
Nossa esse texto eh tdo, realmente não podemos ter tdo o que queremos, mas vc foi feliz a sua mameira e a tornou-a feliz, o tempo suficiente para se recordar com amor, o importante eh amar,nem que seja por alguns segundos...
Sandra Maciente
26/11/06 17:17
que lindo esse texto...
era pra ser triste, mas acabou sendo lindo. que bom...
:***
mil beijos
Que triste. Nem sei o que dizer. É uma situação tão estranha: não dá pra aconselhar, não dá pra comentar, não dá pra fazer nada. Mas você foi um bom amigo enquanto pode.
Gostei da crônica... Muito linda,
bem criativa parabéns.
Ass: Hillary
Xau
Eita dor que crucia a alma... esses amores divinos que temos, por verdaeiros amigos são inexplicáveis...
Agora mais inexpicável ainda... e porque eles são tirados de nós, dessa condição tão pequenas que impomos a eles... de que só estejam bem...
Nessas horas que penso em me fechar num casulo e não mais conhecer ninguém, que um dia possa perder...
Esse eu não vou comentar. Escuta:
http://bit.ly/cCN2gs
é muito triste mesmo, meu amigo também se foi por causa de câncer, mas no caso dele, do diagnóstico ao falecimento, menos de um mês se passou.
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