24 de julho de 2006

INFELICIDADE

A gente se acostuma com ela. Começa com uma desilusão, quando percebemos que não conseguiremos seguir nossos planos de futuro. E abrimos mão de nossos princípios para termos uma vida estável. Acordamos todos os dias às oito horas num apartamento de fundos onde a luz não entra, mal temos tempo para um café da manhã, esquecemo-nos de apreciar o sol no caminho e chegamos em outro caixote para sermos empilhados em nosso ambiente de trabalho. E trabalhamos para enriquecer alguém que nem conhecemos com atividades que não vão trazer nenhum benefício para nós ou para a humanidade. Oito horas, um terço do dia. Saímos no escuro e só temos tempo para jantar e ficar grudados na televisão até cair de sono.

O amor no casamento acaba e não temos forças para nos separar. Ficamos juntos por causa dos filhos sem saber que pais infelizes transformam os filhos em crianças tristes. Traímos por não agüentar tanto desamor, apaixonamo-nos por nossas amantes, mas não temos coragem para assumir. E tornamos nossas amantes também infelizes com promessas que somos incapazes de cumprir.

Arrependemo-nos de tudo que deixamos de fazer, de metade do que fizemos e tentamos nos realizar em nossos filhos, dizendo-lhes como viver sua vida. Sonhamos com carrões, apartamento no Leblon, festas e tudo que temos é um copo de uísque.

Morremos, velhos, bem velhos, tentando lembrar em que ponto nossa vida se transformou nesse longo vazio.

8 comentários:

h disse...

È PRECISO PARAR no meio dessa agitação. Reparar que existimos, respiramos, e se nada está a fazer sentido...é preciso fazer algo, É Preciso PARAR!

Thunderstruckz disse...

crise de meia idade?

Ocama disse...

Nossa, parece que isso saiu de dentro da minha cabeça, impressionante mesmo cara!Concordo com tudo. Legal a imagem que tu colocaste,a capa de um cd duplo do Smashing, tenho esse, um pouco deprê, talvez por isso tenhas escolhido ele.

Anônimo disse...

Tô pior.
Você ainda tem amante;Pode dar desculpas pra sair de casa. Não precisa se incomodar em colocar as crianças pra dormir. Eu sou mulher; não tenho coragem de arrumar amante, meu marido me beija por obrigação uma vez a cada dois meses e a única coisa que me anima são os sonhos eróticos que tenho de vez em quando

Thiago Locutor disse...

A vida torna-se esse eterno ciclo de infelicidade e sofrimento.
Mas porquê então não fugimos, largamos tudo para trás e nos tornamos verdadeiramente felizes?
Alguns acham que é o sistema, o dinheiro, a ambição descabida que nos prende numa encruzilhada de falta de opções.
Eu pessoalmente acredito que estamos viciados no sentimento. Enquanto tudo no mundo estiver errado, podemos nos reconfortar na idéia de ser impossível mudar, "QUE TUDO É ASSIM MESMO...".
Gostei muito do texto.

Ana Sofia disse...

Eu sonho em casar e ter uma vivenda em Oeiras.

Acabar o curso, ser técnica de informatica.
Ir em férias de carro para o Algarve.

Ver os miúdos crescer. Ajudá-los a crescer.

Ter um trabalho que goste e uma casa que goste.

Não tive infância e portanto não tenho resíduos de fantasias de utopia. Só fantasmas e complexos.

Anônimo disse...

Parabens pelo teu blog, palavras certas, nada mais verdadeiro que a tua descriçao.
E pena que as pessoas se tenham esquecido do que e realmente importante. O amor
O pais pensam que os filhos sofrem menos se ficarem juntos, tratam os filhos como idiotas que nao percebem que os pais nao se amam e como tu dizes (e bem) tornam-se crianças tristes.
E preciso ensinar as nossas crianças que vale a pena amar e lutar por esse amor para que quando crescerem nao cometam os mesmos erros e se tornem por consecuencia adultos infelizes

Rafael Burato disse...

òtimo blog!
gostei da análise breve e nem por isso menos ácida.O homem se perdeu e não é de hoje que temos dificuldades em definir nossos princípios.A vida parece uma constante busca...só falta definir essa "busca".



grande abraço a todos


Rafael