28 de fevereiro de 2007

PALCO (parte 2)

Trabalhamos duro, incrementando vocais e desenvolvendo nosso lado instrumental. Meu teclado dava cada vez menos conta do recado, de modo que comprei outro um pouco melhor e passei a tocar com dois. Nosso segundo show teve um público de trezentas pessoas, mas o salão era muito grande e parecia vazio, um pouco decepcionante não fossem os elogios que ouvimos ao final.

As apresentações foram acontecendo e faziam um relativo sucesso. No início de 1996, fizemos dois shows no BallRoom, o primeiro lotado, o segundo, fora da época de férias, um pouco menos cheio. Não tínhamos exatamente um fã-clube, mas tínhamos fãs e amigos que nos acompanhavam. Gravamos duas demos de qualidade, fizemos show em São Paulo, em Angra e na cidade do meu primo, em Minas, tínhamos o apoio de nossos pais... parecia que tudo daria certo.

Mas se é difícil segurar um casamento, que é entre duas pessoas, imagine uma banda com cinco, alguns com o ego maior que o talento? Eu sempre fui low profile, mas o vocalista começou a inflar. Nas discussões da banda, ignorava todas as minhas palavras e queria impor sua opinião. Ele já não estava cantando bem (nas gravações da segunda demo, viajei para a Oktoberfest antes dele gravar os vocais e quando voltei, percebi uma série de falhas. Aliás, foi justamente dele que eu recebi a primeira notícia) e sugerimos que entrasse numa aula de canto. Mas quem aqui já viu vocalista admitir que canta mal?

O clima piorou mais ainda depois que incluímos um percussionista desagregador no grupo. Para arrematar, fomos ludibriados por um produtor do estúdio onde ensaiávamos e fizemos um show vazio, precisando tirar dinheiro do próprio bolso para pagar à casa! Reunimo-nos eu, o percussionista e o guitarrista e decidimos sacar o vocalista, que estava mais insuportável do que nunca.

Mantivemos a decisão quando conversamos com o resto do grupo, mas percebi que não haveria jeito. Testamos outros vocalistas, mas não havia ninguém para compor. A banda naufragou na semana em que conseguiríamos tocar uma música na Cidade do Rock. O sonho chegava ao fim e eu precisava, então, tocar a minha vida.

Durante esse tempo, abandonei minha primeira faculdade e apenas iniciei o cursinho no final de 1997. Muita gente acha que perdi esse tempo e que poderia ter me formado antes. Eu discordo: poucas pessoas têm a oportunidade de aprender tanto sobre sonhos, perseverança e decepções. Foram dois dos anos mais felizes da minha vida.

16 comentários:

Simone disse...

Bá, com certeza não foi tempo perdido. Olha tudo que tu aprendeste com isso. Alguém que te diz ser tempo perdido sabe estas coisas?

Beijos e virei fã mesmo sem ter escutado, bastou tua história.

Jana disse...

Qualquer tipo de união é dificil, imagina em banda..

Mais facil seria se eu soubesse que banda é rs

beijos

Anônimo disse...

Pior, ego de vocalista infla horrores em alguns casos. Tá, quase de todos.
Se foram dois anos felizes, meu caro, foram dois anos muito bem aproveitados!
Beijo!

Cristiano Contreiras disse...

ótimo o conceito do seu blog!

Jade disse...

É muito bom ter experiências, principalmente com o que se gosta, é melhor que ficar pensando como teria sido...
Beijos!!

Luísa T disse...

Acho que vc não perdeu tempo... Vc viveu o seu momento, a oportunidade... Quantas pessoas, por medo ou incompetência somente assistem a vida passar??

Achei seu relato bem interessante... E aguça a curiosidade dos leitores em torno do Sujeito Oculto... eheh

Suzi disse...

ando numa correria tão intensa, que mal consigo ler tudo o que gostaria de estar lendo, como o teu blog...

mas arrumei, ao menos, tempo para um beijo de boa noite.
:o)

Anônimo disse...

eu tenho uma filosofia que diz que tempo nunca é perdido. mesmo quando não se aproveita da melhor forma possível, que não foi o seu caso.

(e fiquei foi curiosa para ouvir a banda...)

Anônimo disse...

"Nem foi tempo perdido..."

Tenho certeza que aprendeu muito durante o tempo em que a banda existiu, Sujeito Oculto [não é indeterminado e nem inexistente também... ou é?]

A Estranha disse...

sonho com a "falecida" eu vivo tendo mas o meu tem motivos pois ele vive presente na minha vida memso estando casado =/
li as duas partes agora mesmo pra entender a história... perfeita... é uma coisa q tu sempre vai levar pro resto da vida, terminando bom ou não... Vc não perdeu tempo de forma alguma... Só o Cara lá de cima sabe das coisas... qto ao resto...enfim ignore né
bjks

. fina flor . disse...

Sujeito, querido, entendo o que diz........

Sou cantora e não encontro banda. Tenho um repertório com 40 músicas próprias, contatos e gravadoras, mas a galera aqui no Rio aprende a tocar violão e na semana seguinte se diz profissional e cobra até ensaio, é dose........ Acabei não investindo nisso desde que cheguei no Rio, mas confesso que gostaria.........

beijocas

MM

ps: como diria Renato Russo * não foi tempo perdido, somos tão jovens*...

Flávia disse...

É, histórias de bandas geralmente são engraçadas e trágicas (não necessariamente nessa ordem...)
Não acha?
Bju

Sidarta Martins disse...

Rapaz, eu lhe entendo.

Unknown disse...

Tem experiências que vale a pena mesmo quando dão errado...Fora que antes gastar mais tempo nas coisas legais da vida do que apressar as coisas chatas...

Cristiane Alberto disse...

A adolecência ou o início da fase adulta normalmente é marcado por grandes rachas, momentos desestruturantes que estruturam a vida futura. E o tom de felicidade no meio do caos também é característico da pouca idade, onde a disposição para o novo é muito acentuada. O sofrimento existe, mas a capacidade de digerir os acontecimentos é muito maior que na fase adulta.

Karla disse...

"Mas se é difícil segurar um casamento, que é entre duas pessoas".. assino embaixo.
Também larguei minha primeira faculdade, a segunda, a terceira.. e a quarta tbm! Mas to terminando a quinta.. ehehehe.