9 de setembro de 2012

FINALMENTE O FIM

Era uma vez um cara que escrevia um blog. Era uma vez um blog. Vou relatar aqui a experiência pela qual acabei de passar e aproveito para dizer que estou encerrando minhas atividades neste blog. Aos poucos que puderam me conhecer, sabem como manter contato. Para os demais, é hora do caixão descer e a terra cair por cima. Minha história tem um final feliz.

Sempre fui um cara precavido no que diz respeito ao sexo. Usava camisinha, apesar de me tirar muito do prazer, em todas as relações. Um dia isso mudou: num papo com amigos no bar, descobri que eles raramente usavam, mesmo para sexo causal e, um dia, bêbado, arrastei uma mulher para a minha casa e a camisinha ficou de figurante. Esse é o problema do álcool, a grande piada de mau gosto: aumenta a libido e diminui a potência.

Fizemos de tudo, por todos os lados. Era a minha face suicida aparecendo. Evidentemente fiquei paranoico, mas nunca tive coragem para fazer o exame do HIV. Na verdade, a minha geração cresceu com a sombra da Aids. HIV era uma sentença de morte e ouvir falar na doença me dava calafrios. Mesmo sem nunca ter transado sem camisinha (levei seis anos de atividade sexual para isso), tinha pavor em ouvir falar de fazer exame.

Comecei a namorar e logo abandonamos a camisinha. Ela estava limpa, eu sabia. Eu não sabia de mim. Namoramos um ano e meio, mas terminamos após a morte do meu pai, quando tudo ficou bagunçado na minha cabeça. Dois meses depois eu já estava enchendo a cara na night, sem saber se queria estar vivo. Nessa brincadeira, acabei ficando com uma amiga minha de longa data e, novamente, acabei transando sem camisinha. Por trás.

Dia seguinte, noiei. Cheguei a falar com ela sobre isso, mas ela me garantiu que estava limpa. Exatamente seis semanas depois, tive uma febre de 40 graus que durou o dia inteiro. Pirei de vez: comecei a acreditar que era a infecção aguda que inicia o processo de instalação do vírus nos órgãos. Vivi semanas como se estivesse infectado, procurando na internet como seria viver soropositivo. Na minha cabeça, já era.

Meses depois, um amigo dessa minha amiga morreu de Aids. Quem morre de Aids hoje? Entrei em pânico novamente. Novamente falei com ela, já enchendo o saco e novamente ela me acalmou. Um tempo depois, retomei meu namoro e, exatamente quatro semanas depois de transarmos, minha namorada teve uma gripe de um dia. Novamente sintomas? Teria eu passado algo para ela?

Não consegui mais viver em paz. Torturei minha amiga com essa história a ponto de eu pedir perdão para ela todos os dias depois. Ela se dispôs a fazer o exame comigo. O exame era a única coisa na minha vida da qual eu tinha mais medo do que do vírus em si. Combinamos uma data. Não aguentei: peguei um pedido do meu médico e fui ao laboratório ontem de manhã. Amostras foram coletadas para HIV, duas hepatites e sífilis.

Passei o dia dando refresh no site do laboratório. Antes de sair, já tinha dado negativo para as hepatites e confirmado minha imunização contra hepatite B. Cheguei agora de uma festa a que fui com minha namorada e liguei novamente o computador para ver isso:


Aos que escorregaram umas poucas vezes como eu, façam o exame. É como tirar um piano das costas. Nada vale a agonia de se acreditar doente. Durante semanas, ou meses, vivi como um condenado.

Não sei como a minha vida vai mudar daqui para frente, mas o maior fantasma que me assombrava, aquele que cresceu com meus medos, que me aterrorizou dos 8 aos 34 anos de idade se acabou. Talvez eu seja uma pessoa menos perturbada daqui para frente. Certamente mais cuidadosa. Mas acho que é um bom momento para o Sujeito Oculto ir de vez para o túmulo.


8 comentários:

Roberto disse...

Prezado S.O.,
É uma pena terminar, mas ao mesmo tempo, é bom que termina assim. De vez em quando passo por situações (não exatamente como essa) que me consomem noites de sono e geram descargas infinitas de adrenalina. Péssimo e angustiante, principalmente quando se passa dos 20 anos.
Começamos a escrever quase na mesma época. Voce termina, eu continuo, sem a sua regularidade. Só peço que deixe no ar, pra que a gente possa curtir suas aventuras, de vez em quando.
Grande abraço, muitas felicidades, muito sucesso... e quem sabe, um dia, possamos escrever, juntos, as crônicas dos ressuscitados.

Sujeito Oculto disse...

Não vou retirar o blog do ar, não seria justo. As histórias ficam aqui, com toda a minha honestidade e sinceridade. Ainda tinha muita coisa para contar, muita doideira aconteceu na minha vida que vale a pena dividir, mas acho que alguma hora, temos que dar um ponto final. Um abraço.

Beto disse...

Sujeito, confesso que larguei um pouco de lado as leituras de suas histórias depois de muito acompanhá-lo no começo. Mas posso dizer que me diverti algumas vezes com suas histórias.

Parabéns pela perseverança nesses anos todos e pelo público conquistado.

Que agora vc possa continuar vivendo as histórias que viveu e possa contá-las a seus amigos mais próximos mostrando pelo menos a sua "máscara nossa de cada dia".

Abraços e tudo de bom!

Beto

Helena Rodrigues disse...

Ah, Sujeito!
Sinceramente, fiquei triste com a notícia do fim do blog, afinal, me diverti muito por aqui. Adorei cada história! - o seu blog, aliás, é um dos poucos que acompanho assiduamente.
Espero que vc volte, nem que seja, de vez em quando. Caso contrário, desejo que tudo dê certo. Mesmo!

Foi muito bom te conhecer, mesmo que superficialmente.

Beijos!

Anônimo disse...

A saga termina por aqui, mas a vida continua lá fora. Seja feliz, cara. E obrigado pela sinceridade. Mesmo sob anonimato, colocar os sentimentos de maneira tão clara como você fez aqui é difícil.

E é legal pensar que o Sujeito oculto pode ser qualquer um de nós, pelas ruas. Talvez seja isso mesmo. Talvez ele seja um pouco de cada um de nós.

Abraços. Adeus.

Tyler Durden disse...

Que paranóia cara! Sofrendo por antecipação...

Mas que você seja feliz. Deixou um imenso registro de memórias.

Karla disse...

Já passei exatamente por essa agonia. E nem sei descrever a sensação de alívio que me causou ao ver o exame dando negativo.

Estive ausente por um tempo.. Meu pai faleceu e eu andei desligada de algumas coisas. Só hoje vi esse post.. E fiquei triste com o encerramento das atividades. Suas histórias são incríveis..

Um dia vamos nos ver. Fica bem..

Beijos! ;***

Rafael P disse...

E ai Oculto...
Visitando agora como convidado. espero que nesta nova fase vc tenha mais liberdade!
Grande abraço!!