4 de dezembro de 2014

SURPRESA (parte 2)

A verdade é que eu estava interessado por ela, apesar daquele papo brabo de ex, o pior assunto para um primeiro encontro. Entramos no táxi, eu a deixaria em casa e iria para a minha, mas percebi que ela estava louca por um convite.

O convite não veio e ela acabou, de uma forma pouco usual, pedindo para ir para a minha casa. "Mas não vai rolar nada, viu?". Tudo bem, eu estava acostumado com esse papo e não me lembrava da última vez em que, de fato, nada acontecera. Mas, dessa vez, eu estava disposto.

Já lá em casa, fomos diretamente para o meu quarto. "Você quer uma roupa confortável para dormir?", perguntei. "Não, não durmo fora de casa, não vou dormir", ela me respondeu, um tanto quanto ríspida. Eu estava morrendo de sono e precisava estar bem no dia seguinte. Mas ela não deixou.

Montou em mim e começou a me beijar. Ela não era somente linda, era daquelas meninas-padrão, loira, magra, curvas, gaúcha... o pacote completo. A verdade é que isso conta mais para a fantasia do que para o ato, mas ela beijava muito bem e rapidamente mudei de ideia quanto a descansar. Logo, nossas mãos alcançaram lugares antes não permitidos entre a gente e faltava muito pouco para que aquelas preliminares virassem o oposto do que ela dissera no táxi. Resolveu me testar: "Qual é o meu nome?". Não respondi só o nome, dei a ficha completa. Ela pareceu satisfeita.

Daí veio o balde de água fria. Ela olhou para um rolo de papel que estava do lado da minha cama e disparou: "Você é igual àquele rolo de papel ali!". Sequer entendi o que ela quis dizer. "Como?", retruquei. "É, você é igual aos outros. Você só quer me comer. Queria que você me surpreendesse, mas você é igual aos outros!". Ainda estava atônito, fiquei sem resposta, tentando concatenar suas palavras. "Eu podia estar com um cara muito mais bonito, muito mais musculoso, mas estou aqui com você, deve ter algum motivo...". Aí que não entendi nada mesmo.

"Não vai fazer nada? Eu falo isso e você não fala nada?". Caí em mim. "Escuta, você está na minha casa, me ofendendo e não entendi direito por quê. Mas deixa só eu te falar uma coisa: não te convidei, você pediu para vir. Não tentei te comer: te ofereci uma roupa para dormir e estava numa boa com isso. Você veio me provocar e eu, evidentemente, fiquei excitado", retruquei. Ela parecia ter levado um soco.

Continuei: "Então acho que você quebrou a cara aqui, porque estava tentando provar uma teoria e não conseguiu. O fato de você ser bonita e gostosa não é, de longe, a coisa mais importante pra mim. Você parecia legal, mas eu estava enganado. Agora me faz um favor e vai embora". Sem resposta, ela se limitou a dizer que não iria porque não estava a fim. "Então me deixa dormir", retruquei.


Deitamos e ela mudou o tom. "Você está com raiva de mim", disse. "Não estou, precisa fazer mais que isso para ter raiva. Estou um pouco decepcionado, só isso". Não demorou e ela estava em cima de mim de novo. Dessa vez, virei o rosto. "Cara, pra quê você faz isso? Deita aqui do lado e dorme um pouco", falei. "Eu provoco, é o que sei fazer...", respondeu.

Ela deitou e jurou que não iria dormir. Mas dormiu. Muito cansado e sem conseguir pregar o olho, esperei um pouco até que acordasse. "Preciso te pedir uma coisa... preciso que você vá embora", eu disse, muito educadamente. "Como assim?", respondeu. "Preciso que você saia da minha casa, quero dormir e não estou conseguindo", já menos cordial. Ela me olhou incrédula: "Ninguém nunca me pediu para ir embora antes!".

Já na porta, ela ainda estava inconformada. Foi quando fechei a conversa com chave de ouro: "Não queria que eu te surpreendesse? Acho que agora você está bastante surpresa". E fechei a porta.

2 comentários:

Paulo disse...

Muito interessante. Obrigado.

Mosana disse...

Curti o texto. Deve ter surpreendido a mocinha mesmo.
Também me lembro de você. 😀