22 de dezembro de 2014

TAKING FOR GRANTED

Aquilo nunca deveria ter acontecido. Mesmo que não trabalhássemos mais juntos, aquilo parecia errado. Mas a distância nos aproximou e todos os dias tínhamos uma desculpa para nos vermos. Depois, pôr do sol em Ipanema, filme lá em casa...

Não teve jeito. Seu relacionamento estava no fim, o meu havia acabado menos de dois meses antes, estávamos carentes até o osso e ficamos muito próximos no período em que trabalhamos juntos. Trocávamos figurinhas de nossas vidas amorosas falidas, cada um com seu drama particular.

Mas aconteceu. E era para ser só uma vez, segundo acordamos. Acordos são para serem quebrados, mas isso levaria mais algum tempo.

Ela se enrolou: se envolveu com um cara do trabalho, amigo meu, que ela não sabia que tinha uma namorada – e morava com ela havia anos. Não sei como ele disfarçou, não foram poucas as vezes que ela foi a sua casa. Continuamos amigos, eu até torci para que desse certo, apesar dele ser o oposto dela. Até que ela lhe deu um flagrante, num bar, enquanto ele terminava seu relacionamento oficial.

Sagaz como a maioria das mulheres, que percebem a verdade na sutileza do tom da voz, percebeu que eu sabia mais do que havia dito e me colocou contra a parede. Quando ela decidiu terminar com ele, acabou revelando o meu nome e faltou pouco para a coisa escalar entre mim e ele. Mas ela interveio e voltamos a ser amigos, tanto quanto era possível. Ele nunca soube da gente.

O problema estava só começando: não tardou e voltamos a trabalhar juntos. E o estado de carência voltou. Tinha sido tão bom da primeira vez... por que não... e eu telefonei. Foi pouco depois do meu aniversário, a última vez em que eles ficaram, na minha frente. Eu não perdi o bonde e também voltei acompanhado para casa. Afinal, não ia sair no prejuízo na minha festa.

Mandei uma mensagem dizendo que tava meio para baixo. Ela foi direta: "Vem pra cá". E fui. E foi ainda melhor. E ficou claro que não seria a última.



Mas nem eu, nem ela, investimos. Nos encontrávamos, a química era absurda, mas os projetos paralelos seguiam. Ela perguntava pelos meus, eu não me interessava pelos dela. Ainda assim, volta e meia, me contava algo. E algo azedou no caminho.

No mesmo instante em que ela percebeu que estava se envolvendo e se afastou, eu decidi que aquilo poderia dar certo. Amor? Paixão? Acho que não. Talvez eu só tenha percebido a sua distância e aquilo que antes estava tão garantido parecia se esvair por entre meus dedos.

Seu discurso era dúbio: falávamos sobre viajar juntos, mas não me convidava para sua casa. Queria minha companhia, mas não me queria ao seu lado no voo que fizemos pelo trabalho, preferiu a companhia dele. E, de mãos dadas, aterrissaram.

E lá, discutimos. Ela foi para o meu quarto e eu falei demais. E sua crueldade aflorou: estávamos os três para sair juntos, ela me pediu para não ir. Eu tinha certeza do que havia acontecido, mas só vi no voo de volta quando, na poltrona à minha frente, passaram todo o tempo se beijando.

Quando cheguei em casa, colocamos os pingos nos ii, com direito a ela dizer que não teria nada com ele; nem comigo. Fiquei mal, muito mal, foi difícil encará-la no dia seguinte, mas, em pouco tempo, fechei a porta e fiquei bem. Não era fácil vê-la chegando tarde do almoço, acompanhada por ele, cheirando a sabonete; mas isso me anestesiou.

Nos reaproximamos e entendi que era uma questão de tempo para voltarmos a sair. Quando vi, estava de volta à sua casa. No mesmo dia, ela se desculpou comigo, disse que havia sido "rude". Rude? Tudo bem, isso já estava superado. E respondi: "Foi importante para estabelecer os limites". É verdade, mas houve um tempo em que faria qualquer coisa por ela.

6 comentários:

Paulo disse...

*****

Rosa Brava disse...

Pois...
FELIZ NATAL!

Adriana disse...

Tô num dilema se levo a sério o ditado popular "Onde se ganha o pão se come a carne", ou não.

Sujeito Oculto disse...

É, Adriana... pode complicar depois.

Paulo disse...

FELIZ 2015. ABRAÇO.

Dave Bowman disse...

Descobri o blog agora, gostando muito. "Mas houve um tempo em que faria qualquer coisa por ela...", por favor, alguém roteirize e filme logo essa crônica!

Abraço.