19 de março de 2007

"ORA, SAMPAIO, VÁ À MERDA!"

Quando eu era criança, quase não se falava palavrão na televisão. Era coisa rara, normalmente em filmes da era pós-pornoxanxada. Lembro-me bem de "Bonitinha, mas ordinária", em que Edgard, personagem de José Wilker, dizia para o pai de sua futura esposa, que também era seu chefe: "Eu sou um ex-contínuo e você é um filho da puhtah!" – bem assim, ele enchia a boca para falar o palavrão, característica da linguagem cinematográfica brasileira dessa época.

Na música, os primeiros a romperem a barreira foram os Titãs, com a música "Bichos escrotos", de 1982, mas que só pôde ser lançada em 1986 devido à censura. Era uma demonstração de coragem do noneto paulista, que enfrentou à sua própria maneira a censura militar, chegando as rádios a pagarem multas por tocarem sua música proibida.

Apenas na década de 90 fui ouvir um palavrão na programação normal da televisão. Era um episódio de "Você decide", aquele programinha super reacionário em que o espectador escolhia entre dois ou três finais pré-filmados pela Globo, normalmente carregado de valores moralistas dignos de vinte anos antes. Um personagem se virava para o outro num momento tenso da trama e exclamava: "Ora, Sampaio, vá à merda!".

Desde então, o critério para o uso palavrão vem desaparecendo, e seu uso, que antes era um lance de oportunismo e sagacidade, caiu na rotina, como em músicas de bandas como Charlie Brown Jr., que, apesar de ter instrumentistas muito bons, se desperdiça com aquele vocalista lamentável e suas letras ridículas. Isso sem falar nos funks e hip-hops que abusam desse tipo de linguagem.

Não fiquem aqui com a impressão de que sou moralista ou coisa parecida (quem leu meus outros textos sabe que não sou). O que me incomoda é a forma inoportuna e artificial como o recurso do palavrão é banalizado, seja na música, na televisão, no cinema ou na poesia. O palavrão na arte é um trunfo, algo que deve ser bem utilizado, seja para marcar uma posição, seja apenas para chocar. Caso contrário, cai apenas na vulgaridade.

29 comentários:

Defensor disse...

Saudações
Concordo com você, amigo. Não vejo novela, mas fui obrigado a asistir o primeiro capítulo dessa nova novela das 8 da Globo... e.. palavrão! Um sonoro mer** so personagem do Toni Ramos. Fiquei abismado, apesar de também não ser moralista!
Abraços

Rodrigo Baptista disse...

Chorão, o poeta da comunidade fotologger acéfala. (Não, não estou dizendo que todos os fotologgers são assim :))

Mafê Probst disse...

Tenho que concordar.
Os palavrões estão cada dia mais banalizados e são usados como qualquer espressão casul que se usa durante o dia.

o típico "Aiii" de "Aii, martelei o dedo" é facilmente trocado por "Merda! Martelei o dedo" ou "Puta que pariu, martelo filho da puta."

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Jana disse...

Em tempos de BBB, tudo que se vê é palavrão...

beijos

Jana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jade disse...

Eu falo e escrevo palavrões no blog, usaria sem problemas um "puta que pariu, martelo "filhadaputa", mas, até já falei isso lá, em 20 anos meu patrão ouviu-me falar um palavrão duas vezes, mesmo assim a conversa não era com ele. Tudo tem sua hora e seu lugar... na música, no cinema, na televisão fica com a maior cara de apelação, um jeito muito forçado de querer ser popular.
Beijos!!

Luísa T disse...

Acho que palavrão tem a ver com emoção... Quando estamos com raiva, pra dar enfase a uma frase onde ele vai expressar de uma forma mais completa seu pensamento... Enfim, tem que ter contexto... As vezes ele é necessário na maior parte do dia, as vezes em nenhum momento...

Lua de papel disse...

querido amigo, não conheço a realidade brasileira mas digo-te que em Portugal o palavrão está de tal forma banalizado que se ouve em todo o lado como linguagem normal.
tal como tu eu também não me faço de moralista (até porque quando estou irritada também os digo) mas confesso que me incomoda e como diz a J@de, tudo tem o seu lugar e tempo. Realmente incomoda-me ver a nossa juventude não saber falar de outra forma e alguns adultos que por ignorancia ou estupidez fazem o mesmo
beijos lusitanos amigo

Ocama disse...

Concordo Oculto. soh dois centavos na conversa: Nao acredito no CBJ, nem no vocal nem nos instrumentistas. O cara da guitarra tem uma tecnica nota 7 (melhor que a minha) mas peca na escolha dos timbres. Programa da globo reacionario? tem certeza? (hehehheh)

Vanessa Campos disse...

Pois olhe, seu moço, lembro de ver uma novela quando era criança, acho que era Hipertensão, e um dos atores soltava um "merda" e eu fiquei tão passada que jamais esqueci. Acho engraçado a forma se usam os palavrões em filmes até hoje, não é de forma natural, como usamos, é uma coisa esquisita, fora do contexto do resto da frase, melhor que não se usasse... melhor que a genet tb não usasse, nera? Mas é que às vezes, nada melhor que eu sonoro "caralho" para explicar bem a situação. :)

. fina flor . disse...

Também acho que perdeu a graça, Sujeito! Quando vejo um texto que começa com 'Porra' ou 'Filho da puta' eu nem me estimulo a ler, sei que em geral é mediocre com aparência de moderninho.

beijocas e boa semana

MM

Anônimo disse...

Verdade. Cai na vulgaridade e nada mais. Nem choca, nem espanta, vira somente uma palavra feia qualquer.
Ah não sei não... mas usar palavrão não é para qualquer um.
;*

Suzi disse...

Garfield só agora conseguiu vir por aqui... rs*

E não fale nenhum palavrão, por conta disso, ok?

Beijo de boa noite!
:o)

Anônimo disse...

ixi, Sujeito, danou-se!

Palavrão pouco no meu Divã é bobagem!!!!!!!

Concordo contigo em tudo, mas ó: CBjr nem bebendo, nem fumando, nem FODENDO!

Vendetta disse...

vc publica direitinho o que escrevo!!!
obrigada pelo carinho, meu Gato!

mais beijinhos pra ti

Anônimo disse...

Eu gosto de falar "buceta!". Está provado que esse palavrão cura até dor, desde que dito segundos após a batida. Buceta é bom até falando...

Abraços,

DB.

Gustavo disse...

A TV Brasileira sempre foi ridícula. O melhor a fazer é não assisti-la. Já cansei de me queixar da rede globo.

Quanto ao Charlie Brown, o instrumental é realmente excelente. Eles tem influência, por exemplo, de PRIMUS, que é simplesmente A BANDA. Se tirasse o chorão e entrasse um vocalista ou no mínimo um LETRISTA descente, sem essa atitude pseudo rebelde que conquista os fãs skatistas em busca de indentificação. Aí nesse caso ficaria ótimo.
Enquanto não fica, eu fico aqui, de boa.

Gustavo disse...

A propósito.
Palavrão é muito bom de se ouvir e de se falar, mas é claro, na hora certa.
Senão é que nem violência gratuita. É um troço que incomoda, mas incomoda sem propósito. É que nem a filosofia do Chorão "Anarquia" "Anarquia Vazia"

Anônimo disse...

Disse tudo, tem razão quando disse que só posta coisas interessantes!

O palavrão está vulgar.

Uma vez vi um desenho das Meninas Super Poderosas onde a Docinho xingava o vilão de idiota, ok idiota não é um "putaaa" palavrão, mas pra criança é dêmás!

Beijoos moço ;*:*

Flávia disse...

E o que era uma forma de rebeldia contra a decedência da repressão vira uma outra forma de decadência!
Adorei o post!
Bj

Beto disse...

Rapaz, acho que o palavrão já caiu na vulgaridade na tv, no cinema, na música e por ai vai...tb lembro bem a coisa que era ouvir Faroeste Cabloco em que todos se escandalizavam com um palavrão bem colocado.
É isso aí...abs

Viajante das Galáxias disse...

Adorei!!
Até mesmo os palavrões (membros tão desvalorizados -porém não menos importantes - da nossa língua) devem ser bem usados, senão perdem a força, a expressividade.

Alpha e Ether disse...

C'est moi disse...
[http://transtorner.blogspot.com/]

A Déia fala muitoooo palavrão.. heheheheh

Leandro Luz disse...

Palavrao hj é tao comum quanto fumar maconha na rua, na boa. Isso tb era uma barreira q foi quebrada. Mas concordo com vc, o palavrao tem q ser bem colocado na arte. E em arte hip hop e funk nao estao incluidos. Demorei mas li teus textos. Vc escreve muito bem, cara. VOu linkar o teu blog. Abração!

Anônimo disse...

Boa! Concordo lá em gênero, número e grau e ainda me lembro da minha mãe trocando o canal quando mandaram o Sampaio à merda.

Sweet Toxicant disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sweet Toxicant disse...

Adoro o seu blog. Venho o acompanhando a um certo tempo e tenho que dizer que seus posts são sempre inusitados.
Quanto a esse post específico, concordo com você. Eu sou a favor do uso do palavrão para expressar nossa mais profunda indignação a respeito de algo, daquelas que vêm cheia de vontade e razão. Mas o seu uso tem sido banalizado, chegando ao ponto de chocar com decepção ao vermos e ouvirmos de qualquer jeito na mídia ou na boca das pessoas... Tem gente que acha bonito falar palavrão à toa.

Esmeralda disse...

Sério, vc realmente tava falando Chorão!?