23 de março de 2007

COBRADOR DE IMPOSTOS

Lá pelos meus dezenove anos, eu estava sem banda, sem faculdade e precisava arrumar algum trabalho, pelo menos até passar no vestibular. Bem no dia em que decidi procurar emprego, um amigo meu me indicou para fazer um bico criando formulários em Word para o dono de uma financeira. Mas fui avisado: "O cara é meio maluco, vai com calma".

Fui conversar com ele, que, assim como meu amigo que o indicara, era meu vizinho. Era mineiro, casado e pai de duas filhas pequenas. Comecei a entender melhor qual era o negócio dele: agiotagem. É claro que estou sendo um pouco leviano ao afirmar isso, visto que ele tinha uma empresa de factoring, mas, na prática, não era muito diferente, considerando os juros escorchantes que cobrava de seus clientes, na maioria funcionários públicos, e seus métodos de cobrança.

O cara era um megalômano: tinha planos para ser milionário, comprou uma Mercedes (1974!), traía a mulher, provavelmente com putas, mas dizia que gostava mesmo era de tirar cabaço. Na realidade, ele trabalhava para um mafioso niteroiense (que tive o desprazer de conhecer) dono de boates e puteiros que vivia com o cofre abarrotado de dinheiro.

Numa conversa que tive com sua empregada, fiquei sabendo que sua mulher estava a par das constantes traições, mas "abria as pernas porque era o que tinha de fazer", e que ela, dentista competente com consultório próprio, sustentava a casa e a família.

Fora que ele sempre estava me devendo dinheiro pelo trabalho, chegando ao cúmulo de um cheque seu voltar! Aliás, esse foi o estopim de um episódio bizarro: ao chegar em sua casa para cobrar o que me era devido (nunca tive medo dele), ele me mostrou duas armas, um revólver calibre 38 sem número de registro e uma pistola. "Sabe o que é isso aqui? É meu cobrador de impostos!". Não me abalei, mas entendi a ameaça e o motivo: ele estava quebrando.

No fim, ficou me devendo quatrocentos reais, que acabou pagando por precisar de mim numa emergência. Pouco depois, levou um pé-na-bunda de sua mulher. Na mesma época, a secretária entregou sua carteira de clientes para o mafioso de Niterói e ele quebrou de vez (bela rasteira!). Encontrei-o em uma de suas visitas a suas filhas. Me disse que queria escrever livros de auto-ajuda, e que tinha aberto uma fábrica de cosméticos. Nunca mais esbarrei com ele que, afogado em sua própria megalomania, teve um destino coerente com sua vida e com suas atitudes.

19 comentários:

Beto disse...

O cara era um empreendedor, não um megalomaníaco...rsrsrs
abs

Jade disse...

Megalômano é pouco...

Ocama disse...

Mas que "cousa". Quem nao teve pelo menos uma vez na vida que trabalhar no "mundo informa"? Me lembro dos meus 20 anos abrindo uma empresa de porteiros eletronicos e sonhando em ficar rico.Criei equipamentos que a Thevear copiou e hoje ela eh muito mais bem sucedida que eu.

Luísa T disse...

É o velho ditado, aqui se faz aqui se paga...

É uma máxima que vale pra quase todos, alguns escapam dela, não sei porque... rs

Gustavo disse...

Pow, "eu estava sem banda" é uma forma de visualizar essa condição de uma ótica completamente nova para mim.
Eu estou sem banda há uns 7 anos, mas nunca parei pra pensar "estou sem banda". Eu só pensava. Ahh. A banda acabou. Poxa, que pena!
Mas na verdade TER UMA BANDA geralmente implica que um dia ela chegará a um fim, mas não necessariamente implica que eu preciso FICAR SEM BANDA. "eu estava sem banda", essa sua sentença me soou tão contundente quanto "eu estava sem água" e é por isso que eu tomei uma decisão: VOU FORMAR UMA BANDA!
É uma pena que eu não toco nada. Só sei gritar. Mas até que eu sei dar uns tabefes no pandeiro.

A propósito. Nunca tomei Dopamina. Porque?

Anônimo disse...

Ninguém entende as pessoas com tino para os negócios. Só faltou sorte...

Abraços.

DB.

Rodrigo Baptista disse...

Daria um belo personagem de Lost.

Jana disse...

diga com quem andar que te direi quem és kkkkkkkkk

Claro que esta convidado..

beijos

SACANITAS disse...

parece meu chefe! :P

beijos
.
.
.

Strange Little Girl disse...

E quem disse q eu ñ faço exercício? Eu habito quase que diariamente a sala de ginástica do meu prédio, hehehe! Só ñ faço mais q uma hora pq não tenho tempo. Meu problema com a balança também tem a ver com a minha ausência de estatura... eu realmente tenho que comer menos que os grandões senão eu viro uma bolotinha!

Bjooos
PS: Qdo a vida acalmar um pouco eu venho pra comentar os textos direitinho!

LuccyInTheSky disse...

3 comments:

1 - Admirada que o cara ainda esta vivo...

2 - Que a esposa ainda deixava ele visitar as criancas

3 - Qual o nome da fabrica de cosmeticos... Just in case...

Bjaum proce
Lu

Anônimo disse...

Mas que bico foi esse, gato???
Cuidado, hein?

D. Queen disse...

Hahaha! Bem feito pro cara!!!!
Mas algo que não sabia é que somos da mesma cidade. RJ. Ok ok, nada incomum...
bj

Mulézinha disse...

que filho da puta...
mereceu muito mais...
se bem que livro de auto ajuda eh castigo pra mais de metro!!!

Suzi disse...

Sacou a do livro? ELE precisava de ajuda, mas já estava sem grana pra psicólogo, terapeuta e tals. Então, preferiu a "auto-ajuda". Achou que seria mais barato escrever.

:o))

blackberry disse...

esse livro de auto ajuda não foi uma das melhores idéias dele né? ;P

e sobre o seu comentario no meu ultimo texto.. um pouco de risco não faz mal, concordo, mas a perda me incomoda bastante ;T por que seria pelas razões erradas. eu não quero mudar, eu gosto dos meus defeitos, poxa ;T
fora que eu não tenho boas experiencias com mudar por causa dos outros

Defensor disse...

...cada um colhe o que planta!
Abraços

Flávia disse...

Quem semeia vento colhe nada, assim como qualquet outra coisa que não seja semente heheheh :)
Bju

Simone disse...

Bá... Parece que vi toda a música do Faroeste Caboclo (com um final melhor, é claro)...

Bjss