@paraotumulo

24 de fevereiro de 2010

ROSTINHO COLADO

Eu tinha oito anos de idade. Era uma criança acanhada e tímida e aceitei a aventura mais pela inércia de não negar do que por minha vontade. Eu era assim, evitava dizer não para não ingressar numa discussão com argumentos complexos demais para a minha idade. Um simples "eu não quero" podia não ser suficiente.

Então fui à colônia de férias: uma semana longe dos meus pais, apenas com o meu irmão de referência – hospedado em outro alojamento – e centenas de crianças desconhecidas. Naquele ambiente, me senti mais à vontade do que imaginava, mas havia uma tensão perene, um medo do desconhecido.

Dentre as várias atividades que prepararam para as crianças, havia um baile cujo grande momento era a hora da música lenta, em que os casaizinhos dançavam de rostinho colado (era assim que a gente falava).

Havia essa garota por quem metade dos meninos era apaixonado. Além dela ser muito bonita, pelo menos conforme meu gosto na época, era muito gente boa, nada metida, muito diferente das outras garotinhas. Para a minha surpresa, na hora da música lenta, era eu quem estava perto dela. Nos olhamos e começamos a dançar. Meu coração disparou quando senti seu rosto colado no meu.

Escondi essa sensação em algum lugar durante os últimos vinte e três anos. O tempo passou e a "hora da música lenta" sumiu das danceterias e boates que frequentei enquanto crescia. Até que...

Carnaval de 2010, eu procurava uma alternativa para o samba que ouvira durante os últimos dias por horas a fio. A boate estava vazia, mas a música estava boa (na verdade, acho que éramos apenas oito pessoas na pista). Aproximei-me da uma garota mais bonita e começamos a conversar. Ela tinha só vinte anos de idade e tinha um papo gostoso. Ficamos, dançamos até que o DJ nos brindou com uma música lenta dos anos oitenta, não me lembro exatamente qual.

Colei meu rosto no dela e diminuímos o passo. Só aí lembrei da sensação da minha infância e do gosto de novidade que aquilo tinha. Então eu, com mais de três décadas de vida, me transformei numa criança de oito anos de idade e deixei aquele momento se prolongar para sempre nos três minutos de que se ocupou aquela melodia.

7 comentários:

João disse...

A gente nunca está adulto demais pra se impressionar com certas coisas.

(cara, nas colônias de férias que eu ia eu apenas apanhava dos garotos maiores, seus pais eram bem mais sensatos que os meus. e você mais sortudo, fato)

doideira disse...

Não é a primeira vez que um texto seu me traz de volta as poucas coisas boas da minha vida. Só por isso você já poderia ser meu amigo. Seu texto fez a vida de outro trintão à procura dos velhos sentimentos puros de felicidade, um pouco menos triste.

Sentimental ♥ disse...

ah, eu quero...
dança comigo?
bjs

Rodrigo Gonzatto disse...

Leia "Bandeira Branca nº2" do Veríssimo. Este conto me deixa desestabilizado, mas tem muito a ver com o que tu escreveu aqui. < http://www.webwritersbrasil.com.br/detalhe.asp?numero=212 >

Suzi disse...

Reviva sempre. Porque meninas são meninas aos oito, aos vinte, aos trinta... e sempre se renderão às emoções de um rostinho colado...

:)

Tyler Durden disse...

Sempre da saudade do tempo que éramos apenas crianças com ansiedades de criança.

Menina Misteriosa disse...

Delícia!
A lembrança, a sensação do novo... excitação com uma pitada de medo... [suspiros]
Muito bom... gostei!
Um beijo

http://meninamisteriosa.wordpress.com/
http://www.aceuabertodaboca.blogspot.com/